terça-feira, 7 de agosto de 2018

Caetanos de Cima e Moitas, paraísos no litoral oeste do Ceará (julho 2018)



“Já ouviu falar de Caetanos de Cima? Bora pra lá no fim de semana?”
Apesar de “pertinho” de Fortaleza (200km, no litoral oeste do Ceará), eu nunca tinha ouvido falar de Caetanos e quando minha irmã me fez o convite, confesso que titubeei. Não estou numa fase muito praia.... Mas, curiosa, fui pesquisar a respeito do lugar e, mais do que uma bela praia e a possibilidade de conhecer os “lençóis cearenses”, ou melhor, lençóis caetanenses, o que me fez decidir  foi a curiosidade de ver de perto essa pequena vila que há anos organiza-se de maneira comunitária, resistindo à especulação imobiliária sempre de olho naquele pedaço de paraíso para investir em turismo.
Então bora! E de quebra tivemos a praia de Moitas. Esta eu já tinha ouvido falar, embora também não conhecesse.

Mas comecemos por Caetanos de Cima.
O “De Cima” é em razão de existir o “De Baixo”.
O Caetanos, diz a lenda, ficou por causa do seu primeiro morador, há bastante tempo, que chegou por lá e iniciou um povoado. A praia ao lado também cresceu, formou vila e hoje são dois povoados, o Caetanos de Cima e o Caetanos de Baixo. Em comum, parte do nome e a praia, porém, o De Cima tem uma história diferente, que começou com a luta pela terra, até que, na década de 80, juntamente com mais duas comunidades (Pixaim e Matilha), conseguiram a posse do que lhes era de direito no Assentamento Sabiaguaba.
A partir daí os cerca de 300 habitantes organizaram-se, entraram para a Rede Tucum (Rede Cearense de Turismo Comunitário, que luta em defesa do território e das tradições da zona costeira do Ceará), criaram núcleos culturais com atividades voltadas principalmente para os jovens, como grupos de capoeira, de música, teatro e resgataram antigas tradições já esquecidas pelo tempo, como a dança do coco, hoje festejada pela meninada, sob o comando experiente da Dona Teresa, com o grupo Raízes do Coco.

Não foi só a parte cultural que eles organizaram. Quase tudo o que se come por lá é fresquinho. Além do peixe, são criados animais  e toda casa tem o seu “quintal produtivo”. Mandioca, milho, cana, verduras, frutas mil. Tudo orgânico e sem agrotóxico. Têm também a Casa de Farinha comunitária e o Restaurante das Mulheres, comandado por elas, grupo feminino presente com força na comunidade.

Restaurante das Mulheres à beira mar


É muita história! E pra ouvir tudo isso, não existem pousadas luxuosas em Caetanos. A hospedagem para os visitantes é oferecida pelos próprios moradores. É o turismo comunitário. São nove as famílias que possuem espaço, seja dentro da própria casa, seja em pequenos chalés construídos com esse objetivo de hospedagem.
Nós ficamos com o casal Ana e Valyres. Eu, num quarto dentro da casa. Márcia e Ceiça, no chalé do lado de fora.
Não poderia ter tido experiência melhor!
Participar um pouco da vida da família, acordar com as galinhas (literalmente), conversar com a Ana à beira do fogão enquanto ela fazia a tapioca pro café,  comer no caramanchão pisando no chão de areia fina um peixe fresco, chupar cana tirada ali na hora pelo Valyres (depois de ouvir de mim que há anos não chupava uma cana) e deitar na rede olhando as dunas ao longe, escutando o silêncio do vento. Até a grata satisfação de participar do aniversário de 12 anos do Pablo, filho do casal, nós tivemos! Uma noite simples mas especial da qual nunca iremos esquecer.

12 anos do Pablo
Sofrimento.....

Casa da Ana e Valyres
Nossa estadia ainda foi premiada porque no mesmo final de semana o grupo Mara Hope estava por lá fazendo um vídeo clipe e na noite do domingo, no Restaurante das Mulheres, toda a comunidade se reuniu e teve apresentação da dança do coco, roda de ciranda, batuque com os Iniciantes do Batuque, forrozinho pé de serra e o Mara Hope. Noite foi mágica!
De arrepiar ouvir ali, beira de praia, as pessoas da comunidade, conosco, os " de fora", tudo junto e misturado, cantando Dorival Caymmi à capela : "Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer. Se Deus quiser quando eu vou voltar do mar, um peixe bom, eu vou trazer...."

Grupo Raízes do Coco

Grupo Iniciantes do Batuque

Mara Hope

Dança do Coco na praia


Vídeo da noite no Restaurante das Mulheres: https://www.youtube.com/watch?v=AL-p12X9-MM

E a dança do coco:  https://www.youtube.com/watch?v=8bizuWqBaBA


Como se não bastasse tudo isso, o local tem uma área com dunas e lagoas belíssimas, onde passamos os finais de tarde.
S de Fortaleza querendo conhecer esses “lençóis cearenses” mas aprendi que o nome é (com toda propriedade) Lençóis CAETANENSES. Belo!


Cachorrinha Ferrugem apreciando o por do sol sobre as dunas




Estando em Caetanos, ou na região, a esticada para a praia de Moitas tem que constar no roteiro. Praia calma, povoado pequeno e que tem uma atração extra: o passeio de barco pelo rio Aracatiaçu.

Praia de Moitas

Barra do Rio Aracatiaçu
Na barra, existem barcos que levam os turistas pelo rio, podendo ser pela manhã ou no final da tarde, para o por do sol.
Fomos pela manhã e tivemos a sorte (depende da maré) de passar pelo túnel de mangue. Pensei que fosse só um “arcozinho” de galhos mas é realmente um túnel grande que se forma com as raízes de mangue de um lado e de outro, e vários caranguejos vermelhinhos correndo assustados com o barco. 

Iniciando o passeio de barco pelo Rio Aracatiaçu

Entrando no túnel de mangue
 O passeio demora umas duas horas, incluindo uma parada de 20 minutos na Ilha das Ostras, onde tem um barzinho muito bacana, com peixe frito, camarão e ostra, claro! Na volta, parada par um banho ligeiro nas águas do rio, ao lado da dunas.

Restaurante da Ilha das Ostras


Estacionamento de balsas

Banho no rio

O passeio de Moitas foi maravilhoso mas acho que não preciso nem dizer que amei os dias em Caetanos. Um pedaço do meu Ceará lindo que eu não conhecia. E conheci de uma maneira especial. Voltarei com certeza.


Dicas para quem vai:

Caetanos de Cima

Como chegar: a 200km de Fortaleza, no litoral oeste, município de Amontada. Um pouco antes de Icaraí de Amontada, seguir a placa de Sabiaguaba e chegando lá, o melhor é ir perguntando. A partir de Sabiaguaba, estrada tranquila, de paralelepípedo e depois um pouco de piçarra. O itinerário certinho tem no site da Rede Tucum ou no de Caetanos de Cima(logo abaixo).

Na estrada: paradinha obrigatória em Paraipaba para comer café com tapioca e comprar de tudo um pouco: rapadura, doces, mel, coco, quebra queixo, frutas..... São várias opções de lugares todos à beira da estrada.

Onde ficar: não existem pousadas "formais" nem hotéis. A hospedagem é feita nas casas de alguns moradores, num turismo comunitário.
Fiquei na casa da Ana e Valyres, a Espaço Cabaça de Colos que além de quarto individual com banheiro, também tem um pequeno chalé disponível para aluguel e espaço para camping. O local não fica perto da praia. É preciso ir de carro ou encarar meia hora de caminhada. Em compensação fica pertinho das dunas dos “lençóis”. 
 

Quarto no interior da casa




Já a hospedagem perto da praia, vi o Chalé Velejador de Sonhos, mas deve também ter outras opções nas hospedagens oferecidas pela comunidade. Para isso, fica o contato da Helena: 88 8112-1753 






Passeio: quem chegar na praia e quiser conhecer os lençóis, vai no Restaurante das Mulheres e procura por alguém que possa guiar. O passeio pode ser a pé ou de carroça.  Qualquer informação, fica o contato da Graciele, do Restaurante das Mulheres: 88 9994-8385


Site da Rede Tucum: http://www.tucum.org/

Site de Caetanos de Cima: https://caetanosdecima.wordpress.com/


Moitas

Como chegar: vizinho a Caetanos e antes de Icaraí de Amontada.

Onde ficar: Moitas possui pousadas e uma na beira da praia: http://www.laculabrasil.com/bem-vindo/

Pousada Laculá


Passeio de barco: chegando na vila, perguntar de onde saem os passeios, na barra do rio. Pagamos R$ 20,00 por pessoa mas esse valor não é fixo. Depende do tamanho do grupo e da negociação..... 😄😁


Mais fotos:

Caetanos de Cima

Pegando a estrada


Perdidas antes da entrada de Caetanos

Lençóis Caetanenes já avistados ao longe


Caetanos de Cima pra direita e Caetanos de Baixo pra esquerda


Caminho acertado


Escola de Caetanos de Cima

Chegamos!!







Consciência nas paredes do Restaurante das Mulheres


Recados espalhados no banheiro feminino


E no banheiro masculino


Com Graciele e seu pai






Dia de dançar o coco na praia
 

Exibindo a blusa de renda de bilro feita pelas mulheres da comunidade

 
Bora dançar o coco!



À caminho pros lençóis




 



  






 






Entrada do Espaço Cabaça de Colo


Márcia e Ceiça

Milho pras galinhas e perus

O quintal da casa da Ana

Urucum


O quintal do "meu" quarto
Conversa na cozinha

Caramanchão das refeições e do proseado

"Jogo Americano" feito pela Ana com as escamas do peixe Camurupim

Almoço fresquinho

Companhia sempre presente

Folga....

Noite do aniversário do Pablo

Com o aniversariante

Ana providenciando a tapioca pro café

E a tapioca


Lugar das refeições e conversas


Local de camping




À caminho da praia

Paisagem da janela do chalé

Ana tirando a hortelã da horta pra fazer o suco

Valyres cortando a cana tirada na hora pra matar meu desejo 😀


Canudos orgânicos pra beber o coco, de mamoeiro e carrapateira

Nosso café da manhã

E nossa vizinhança


Moitas

No caminho pra Praia de Moitas


Passando pelo Parque Eólico


Peeense na folga!!! hahahah

Praia de Moitas

Nossa trupe





Barra do Rio Aracatiaçu




Túnel de mangue






Ostras na Ilha das Ostras

Banheiro do restaurante da Ilha das Ostras







Caminho de volta

Banho de rio no caminho




Chegando de volta

Igreja de Icaraí de Amontada


Icaraí de Amontada


7 comentários:

Telma Campos disse...

Que maravilha de passeio! Parabéns pela singeleza da narrativa!

Anônimo disse...

Relato tão minucioso que dá vontade de conhecer. Parabéns!
Tânia

Anônimo disse...

Ainda bem que a natureza e alguns seres vivos, incluindo humanos, continuam a fazer resistência ao concreto e metal.
Bruna

Anônimo disse...

A singeleza deste blog está fantástico! Dá vontade de arrumar a mochila e partir!
Telma

Anônimo disse...

Lia, o post tá perfeito! Senti até o cheiro do peixe e da maresia.
Cláudia

Anônimo disse...

Um espetáculo o blog.
Tudo muito bem escrito, como sempre. Tanto detalhe.
Parece que tava lá. As fotos estão ótimas também. Fiquei realmente muito curioso pra ir pra lá um dia.
Marcelo

Anônimo disse...

Menina teu post ficou um espetáculo. Adorei! Preciso conhecer.
Já escutei mto falar de Amontada pois o marido de uma amiga foi prefeito da cidade há um bom tempo. Agora não sabia dessas belezas naturais do local. Mto massa a gente ter o privilégio de encontrar pessoas como tu que tem o desprendimento, paciência e boa vontade pra nos ofertar tantas dicas show. Obrigada linda. Parabéns pelo belo trabalho.
Marinês