quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Havana - novembro/2016



A Havana da minha imaginação era a do “Trilogia Suja de Havana”, livro do Pedro Juan Gutierrez, com o malecon como palco principal e seus  edifícios em ruínas.
A fome da década de 90 certamente tinha passado, mas a cidade provavelmente continuaria a mesma....
Muitas coisas lidas em blogs e sites também mexiam na minha imaginação, mas ao chegar na cidade, já a partir do desembarque no aeroporto José Martí, fui começando a desconstruir o que estava pré concebido.


Poster em uma livraria

Salão de desembarque lotado de turistas, imigração rápida, sem filas. Não sei se dei sorte.
O motorista do taxi contratado pela casa particular onde iríamos ficar estava nos esperando com uma plaquinha com nossos nomes  e o carro não era nenhuma antiguidade e sim um novíssimo.... (marca francesa que não lembro...). Procurei, mas não vi o tal do cartaz da Revolução que dizem ficar perto do aeroporto. Tá certo. Depois eu os veria pela cidade.

Chegando na casa contratada, em Centro Habana, os proprietários não se encontravam e fomos recebidos pela mãe da dona, que conseguiu entender um pouco meu portunhol e me indicou o caminho da Calle Obispo, talvez a mais movimentada rua de Havana, onde encontraríamos uma casa de câmbio.
E lá saio eu, caminhando em direção a Havana Vieja, olhando pra tudo e pra todos, com uma curiosidade sedenta como nunca tinha tido em nenhuma viagem.
A decadência descrita em Trilogia continua ali, com muitos prédios em péssimas condições, alguns com aparência de cortiços, mas ao alcançar a zona mais turística da cidade, a quantidade de turistas circulando me impressionou. Na rua Obispo, somente para pedestre, o burburinho de lojinhas, restaurantes, pessoas das mais diferentes nacionalidade foi surpresa total. Estou em Cuba mesmo? 

Estátua viva na rua Obispo

A primeira afirmativa pra minha pergunta veio com a fila na casa de cambio (chamada de CADECA), pois já haviam me dito que em Cuba, pra tudo tem fila. Bem, não foi bem assim também....

Eu tinha lido que o país possuía duas moedas: o CUP, usado pelos cubanos, e o CUC, usado somente pelos turistas. Bem, não é mais assim também.... Na verdade o CUP continua sendo usado somente pelos cubanos enquanto que o CUC, moeda forte, com cotação quase equivalente ao Euro (1 Euro = 1,05 CUC), é a utilizada na realidade e circula para tudo e entre todos. Sobra ao CUP (1 CUC = 25 CUP) ser pago aos trabalhadores pelo governo e para ele retornar, através de contas de água, luz, telefone, aluguel, mercados e lojas estatais. 

Superada a surpresa inicial, hora de caminhar até a atração mais ansiada por mim, o malecon. E aí sim! Ele é tal e qual o descreve o “Trilogia”.
Apesar de ter vários prédios públicos reformados e mais alguns sendo reformados,  a beira mar de Havana parece que permanece a mesma desde a época da Revolução. Quer dizer.... Nada novo foi construído  mas os prédios antigos, da década de 50, foram ganhando ao longo dos anos as marcas da deterioração do tempo e da maresia do Caribe. Lá, estamos na Cuba da minha imaginação.


Depois de muita caminhada, voltamos pra casa. Havana, para quem gosta de se perder caminhando pelas ruas é uma maravilha! Cidade segura e fácil de se orientar, foi percorrida por nós à pé ao máximo. A única ocasião que utilizamos táxi foi na ida/vinda pro aeroporto e para o Hotel Meliá, onde precisei pegar o kit da corrida.
É bem verdade que para ter uma visão mais abrangente da cidade, indo para bairros um pouco mais afastados, pegamos no nosso segundo dia aqueles ônibus de dois andares que fazem tour turístico (Habana Tour Bus). Valeu muito à pena, mas o bom mesmo foi caminhar, caminhar, caminhar.... 

A Plaza Jose Martí é ponto de partida para muitos dos pontos turísticos.
O Capitólio, antigo prédio do Governo estava em reforma, portanto fechado. Vizinho a ele, o belíssimo Teatro. A Catedral, a Plaza Vieja, a Plaza de La Revolucion, com os emblemáticos rostos de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, o famoso e imponente Hotel Nacional (e outros hotéis antigos, lindíssimos no seu interior), o Paseo del Prado que liga a Plaza Central ao Malecon, tudo devidamente visitado.

Mas nosso passeio preferido foi caminhar pelas ruas da cidade, sem sombra de dúvida. Tanto que nem fomos ao famoso Museu de La Revolucion. Não quisemos “perder” nosso tempo de observar a cidade. Caminhar,  passear pelo malecon, pelo porto, observar os cubanos, parar num barzinho pra tomar mojito ouvindo música, se deparar sem querer com uma academia de box e “curiar” o treino, torcer o pescoço para todo carro antigo bonito que passava, dando a impressão de termos sido transportados no tempo ou de estarmos em um museu do automóvel a céu aberto.


Bares e restaurantes,  existem diversos e pra todos os gostos e bolsos (sim, os cubanos já têm permissão de ter seu próprio negócio). Claro que na zona mais turística eles são mais caros. Saindo um pouco mais dessa zona, os preços caem, assim como as opções. Na zona turística paga-se caro, mas o valor é recompensado pela boa qualidade dos músicos que na grande maioria dos bares e restaurantes diverte os turistas com um bolero ou uma salsa animada, sempre passando o cofrinho ao final para as “propinas”.

Havana foi e não foi o que imaginei. Uma cidade pulsante. Parada no tempo e caminhando a toda hora pra um futuro que não se sabe ao certo onde será. Uma cidade de barulhos, de risadas, de música. Uma cidade cheia e ao mesmo tempo sem o efeito sufocante das grandes cidades (ainda). Mutante. Velha e nova. Decadente e florescente. Pulsante.

Dicas pra quem vai:

Onde se hospedar: fiquei em Centro Havana e ficaria novamente. Ou lá ou em Habana Vieja, onde se concentram as atrações turísticas e você pode transitar livremente sem depender de carro.

Casa Particular ou hotel: toda minha hospedagem em Cuba foi em casa particular. Achei que seria um modo de ter contato com o povo local e realmente foi. Mas existem hotéis (embora sejam bem mais caros). Ficamos na Casa Colonial Abogados Leonardo Y Angel, pertencente a um casal de advogados, Ângela e Leonardo, muito simpáticos, prestativos e garantia de uma boa conversa. Quartos limpos, espaçosos, confortáveis, com ar condicionado e geladeira. Recomendo. Diária 30 CUC, sem café da manhã, que custa 5 CUC em toda casa particular. Mas se quiser um café padrão 5 estrelas, pague 6 CUC no Hotel Inglaterra, na Plaza Jose Martí). Contato da casa: leoangela2014@gmail.com

Saindo/Chegando do aeroporto: na chegada vale contratar o transfer com o dono da sua casa particular. Pagamos 30 CUC por isso. Do contrário, existem táxis normais. Na volta, a dona da pousada providenciou pra nós, por 25 CUC, um carro se desmanchando de velho. rsrs

Habana Tour Bus: tour turístico muito bom, onde você pode descer e subir novamente nas atrações principais. 10 CUC por pessoa

Bares: pesquisando pela internet, existem inúmeras possibilidades. Dentre os mais populares estão o La Bodeguita Del Medio e o La Floridita, ambos frequentados pelo escritor Ernest Hemingway, que fez a fama dos locais.
O La Bodeguita é mínimo, com espaço praticamente para o freguês pagar a maior atração da casa, o mojito (5 CUC, o mais caro da viagem). Vale a pena e tivemos a sorte de ter um grupo musical maravilhoso no dia que fomos.

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                                                           Preparando o Mojito
Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=HD7ORu6YqDo

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                                                   Animação no La Bodeguita
Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=g4J8NwNVdq0

La Floridita é famoso por outro drink, o daiquiri. Bem que tentamos prová-lo, mas, apesar do bar ser um pouco maior que o outro, nas nossas três tentativas foi impossível, de tanta gente.
Fora esses, fomos também ao Los Hermanos (vizinho ao Museo Del Ron) e no El Dandy (Brasil com Plaza Del Cristo), todos em Habana Vieja.

Restaurantes:
Dentre os recomendados, o Dona Eutímia me pareceu ser o campeão, mas tem que fazer reserva então não fomos a ele.
A dona da nossa pousada nos recomendou muito o Los Nardos, que fica em frente ao Capitolio, mas também não tivemos tempo.
Comíamos quando sentíamos fome e no que nos atraísse e, dentre eles, fomos atraídos por um em frente ao Malecon somente pela vista que proporcionava e surpreendentemente tivemos a melhor ropa vieja (prato típico de carne) de Cuba. O restaurante, El Presidente, fica logo no começo da orla, tem uma vista belíssima, atendimento atencioso e ainda por cima fomos brindados com um excelente violonista que cantou Sílvio Rodrigues para nós.

Entrada do El Presidente


Táxi: os táxis em Cuba não têm taxímetro, então o negócio é negociar com antecedência. Como andamos pouquíssimo, não tivemos problemas. Dentro de Havana as corridas variam entre 5 e 10 CUC.

Rum: bebe-se muuuuito em Cuba e o rum é disparada a bebida campeã. O Havana Club (antigo rum Bacardi antes da revolução) é visto e servido em todos os lugares, mas tem também o Santiago de Cuba que me falaram ser até melhor que o Havana Club. Tanto em lojas do governo quanto nas lojas para os turistas, como La Casa Del Habano, eles têm o mesmo preço, de acordo com tempo de envelhecimento do rum.



Charuto: são diversas marcas e tamanhos e, diferentes do rum, os charutos são mais caros. As marcas mais conhecidas são Monte Cristo, Partagás e Cohiba (a preferida de Fidel Castro). Mas atenção: também diferente do rum, que é seguro comprar, os charutos devem ser SEMPRE comprados em lojas seguras, como La Casa Del Habano. Se não quiser se arriscar em levar charutos falsificados, jamais comprar de ninguém que ofereça na rua com conversa fiada e bastante atenção pra não cair no golpe do charuto, bastante conhecido, mas que ainda faz suas vítimas, dentre elas, quaaaaase que fizemos parte das estatísticas.
O golpe: estávamos procurando o acesso de entrada para visitar o Hotel Nacional e perguntei a um rapaz que estava parado num posto de gasolina por onde era esse aceso. Ele foi muito gentil, logo perguntou de onde éramos e disse que sua mãe era médica do programa Mais Médicos em São Paulo, e blá, blá, blá, muita conversa, nos falando sobre Cuba, onde deveríamos comer, etc. Nos disse que o Hotel Nacional estava temporariamente fechado para visitantes porque o Presidente do Japão (?) estava reunido com Raul Castro naquele momento. Perguntou-nos onde estávamos hospedados e nós dissemos o nome da rua. Perguntou-nos se gostávamos de charutos e disse-nos que estávamos com bastante sorte pois justamente aquele era o dia anual que Raul Castro, pra fazer um agrado aos trabalhadores de Cuba, vendia charutos e rum pela metade do preço em umas cooperativas. Indicou-nos então o caminho e nós, nem mesmo muito interessados, como estávamos só passeando, decidimos ir ver.
Seguimos os dois sozinhos pela rua indicada e logo mais à frente, no sentido contrário, veio um outro rapaz que nos parou demonstrando surpresa e alegria “Oi, conheço vocês! Não estão hospedados na rua Neptuno? Eu os vi por lá!” E começou a falar e também mencionou a tal cooperativa de charutos, oferecendo-se para nos levar.
Foi nessa hora que finalmente caiu a minha ficha! Eu tinha lido sobre esse golpe na internet! Igualzinho! O primeiro homem pega o máximo de informações nossas, repassa tudo por celular ao segundo, que vem como que por acaso e finge nos conhecer e por vezes, até ser amigo do dono da pousada, para inspirar confiança e nos levar ao local que vendem os charutos falsificados, feitos de folha de bananeira. Tudo só na lábia.
Bem, dissemos que não queríamos, demos meia volta e fomos visitar o Hotel Nacional, que não estava interditado pra “presidente” do Japão coisa nenhuma!

Internet: para ter acesso, você tem que comprar um cartão que lhe dá direito a 1 hora (2 CUC) ou a 5 horas (10 CUC) nas lojas do governo, chamadas ETECSA, onde sempre tem muita fila. Felizmente conseguimos o cartão de 1 hora em um quiosque perto do Paseo Del Prado, com o ágio de 1 CUC e evitamos as filas, mas é preciso paciência pra usar a internet em Cuba..... Primeiro,  não é em todo local que existe o acesso ao wifi. Somente nos saguões de alguns hotéis (que o turista pode entrar à vontade para acessar) e em algumas praças (que você identifica quando vir um monte de gente teclando em seus celulares). Segundo, o sinal cai muito e você tem que recolocar pacientemente o login e a senha do cartão.

Cartão para wifi : imagem bem apropriada

Câmbio: nas CADECAS. Filazinha básica sem problemas maiores. Mas não leve dólar. Sobre o dólar o governo coloca ágio de 10% e não vale a pena. Leve euros pra trocar.


Veja também sobre Cuba: O que eu vi em Cuba em novembro de 2016
                                                Cienfuegos

                                                Trinidad 

Mais fotos:




Fila na CADECA para trocar dinheiro




video
                                                               Animação sempre

Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=IjUJC0YUYCU










video

Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=70OhSjvMeAA 















Entardecer no Malecon






Noiva chegando no Hotel Meliá


Da nossa varanda


Os apartamentos reformados são os que os proprietários alugam como "casa particular"

Rua da "nossa" casa



Surpresa de uma corrida antes da Marabana




Gran Teatro de La Habana


A cúpula do Capitólio e o Teatro







O Hotel Nacional

Partida de baseball, o esporte mais popular de Cuba


Prédios de uma Havana "mais moderna"



Praça da Revolução com o rosto de Camilo Cienfuegos


e Che Guevara


Malecon






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                                                                Animação pelas ruas

Youtybe: https://www.youtube.com/watch?v=Fp962ghXjQg


Catedral


La Bodeguita Del Medio





Brinde com mojito e cerveza Cristal


Plaza Viejas






Bairro Chinês






Porto e duas épocas






Avenida del Puerto












Malecon




Prato cubano: ropa vieja




Turistas deixando a ilha









Coco Taxi


Retrato de Fidel no Hotel Nacional


Interior do Hotel Inglaterra




Paseo del Prado







Mais um cantor nos bares de Havana: https://www.youtube.com/watch?v=uLL-VNIhEzc




2 comentários:

Anônimo disse...

Texto maravilhoso e empolgante.
Fiquei com vontade de ir.
sonia Paraíba

Wilkie Martins disse...

Sou suspeito pra elogiar, mas vc foi mt feliz ao concluir que Havana é "Mutante. Velha e nova. Decadente e florescente. Pulsante." Nota mil, grande repórter!