segunda-feira, 8 de maio de 2017

Marrocos e minha primeira vez na África ( abril/2017)



Um restinho de férias, a vontade de viajar e correr num local desconhecido, a descoberta de uma meia maratona no Marrocos. Topa Cris? Topo.
Mas peraí..... Como é que é viajar para um país muçulmano, só duas mulheres? Vou ter que usar véu? E na corrida? Poderei correr de shorts? E essa onda maluca de terrorismo, estará o Marrocos envolvido?
Perguntas, perguntas, perguntas (de uma mente ignorante e preconceituosa, confesso) e um mundo novo de descobertas clareando pouco a pouco, apesar do medo do desconhecido permanecer sempre ao lado.


Há muitos e muitos anos, os habitantes do Marrocos eram os berberes, povos nômades, com suas tradições, costumes, língua e religião próprios. Os árabes chegaram, introduziram o Islã e a língua árabe, mas até hoje as línguas oficiais do país são o árabe e o berbere. O francês é largamente falado (principalmente nas cidades turísticas) e obrigatoriamente estudado nas escolas, isso porque o país foi um protetorado francês de 1912 a 1956.
O país é uma monarquia parlamentarista, onde o rei Mohamed VI é quem realmente dá as ordens. Tido como progressista, creditam a ele uma tolerância religiosa, a segurança do país e o incentivo do turismo, que vem sempre crescendo, com maioria de turistas europeus, principalmente franceses e espanhóis.
A segurança em relação a roubos e furtos é um sonho para nós, brasileiros. Anda-se sem nenhum problema pelas cidades e o único lugar que nos alertaram para “possíveis” furtos foi a cidade de Fez, mas em nenhum momento vimos absolutamente nada em relação a isso.
Já em relação ao terrorismo, o Marrocos não é um país que esteja em zona de perigo e orgulha-se do controle que é exercido para que continue assim. Medidas como o fechamento da fronteira com a Argélia e a proibição da entrada de qualquer pessoa no aeroporto que não tenha um cartão de embarque, são tomadas para repressão. 
Foi minha primeira viagem a um país muçulmano e, por saber dos costumes, optei por respeitá-los e andar de calças, camisas sem decotes e roupas sem ser coladas. Vi turistas de shorts e vestidos curtos e decotados. Se um ou outro mexeu com elas eu não vi e não sei, mas continuo achando que devo respeitar os costumes dos locais que visito, embora, se um dia eu voltar numa época mais quente, use sem problema uma bermuda.

Ficamos, na maioria das vezes, hospedadas nas medinas, que são as cidades antigas, cercadas por muralhas, onde carros não entram na maioria das ruas estreitas, e nunca esquecerei a primeira vez que ouvi o chamamento para a oração. Cinco vezes ao dia (antes do nascer do sol, por volta de meio dia, antes do por do sol e duas vezes à noite) de todos os minaretes (torres) de todas as mesquitas, pelos alto falantes, as cidades se enchem com uma voz masculina (que nunca é gravada), chamando para a oração. Por vezes eu tomava um susto e no “chamamento” da madrugada eu sempre me acordava mas também sempre me sentia em uma outra dimensão, como num sonho, como num filme e acabei por ficar olhando o relógio à espera desse chamamento.

Minha filmagem de cima do terraço do meu hotel, em El Jadida, com as mesquitas chamando para a oração do por do sol:

Nas cidades grandes, como Marrakech e Fez, fora da Medina parece outro mundo. São avenidas largas, modernas, tudo muito limpo e bem cuidado. Aliás, essa limpeza das ruas me impressionou não só nas grandes cidades mas também nas cidades pequeninas pelas quais passei nas estradas, a tal ponto, que perguntei ao nosso guia onde eles colocavam o lixo, pois não se viam sacos, depósitos ou qualquer lixo que seja nas calçadas. Ele me respondeu que a população só coloca o lixo na calçada no horário que o caminhão passa para recolhê-lo. Óbvio e simples.... (quem mora em Fortaleza entende o porquê da minha admiração...).

Nas mesquitas, os não muçulmanos não podem entrar mas podemos olhar do lado de fora da porta, enquanto eles tiram os sapatos (homens e mulheres separados) e se ajoelham nos tapetes para orar.
A moeda marroquina é o DIRHAM (10,5 dirham = 1 euro), mas em muitos lugares turísticos eles aceitam o euro.
A maior cidade é a imortalizada Casablanca e a capital do país é Rabat.
Tive pouco contato com o povo local, a não ser com os envolvidos com o turismo, que sempre foram amabilíssimos e prestativos.
Nas ruas, pode-se ver homens que andam de mãos dadas, mulheres que usam véus, saias, calças e também o niqab, onde somente os olhos ficam de fora (aprendi que o que chamamos de burca, é só o que se usa no  radical Afeganistão). Todos parecem conviver pacificamente. Só não aponte uma câmera para eles! Mesmo não apontando, já vêm com o dedo em riste “no photos!”. Os que estão nas praças com animais e fazendo shows, querem a grana pela foto. Os demais, principalmente as mulheres, não querem mesmo ser fotografados.

A comida é outro capítulo. Cheia de especiarias como cominho, gengibre e levemente apimentada. O cuscuz marroquino (feito de trigo), a tagine (cozido com legumes) e a pastilla (um folheado agridoce recheado com uma carne) são deliciosos, sempre servidos acompanhados de pão (árabe!). 

Tagine (acima) e cuscuz (abaixo) acompanhados, como sempre, de pão e azeitona

Para beber, o suco de laranja maravilhoso é a melhor pedida, embora eu tenha sentido muitíssima falta de uma cerveja gelada naquele calor!
Eles têm cerveja, claro, eles têm álcool, mas esqueça a possibilidade de sentar num restaurante numa mesa da calçada para observar o movimento bebendo uma cerveja. São muçulmanos e a religião não permite. Para vender bebida alcoólica os restaurantes têm que ter uma autorização especial que, segundo me disseram, custa caro. Dentro da Medina é mais difícil encontrar locais que vendam (mesmo os turísticos!) mas me disseram que fora das medinas, nas “cidades novas”, é mais comum. Tudo bem. Ninguém vai morrer por falta de uma cerveja.... Mas que faz falta, faz... hahahha Em compensação toma-se muuuuito chá (de menta). Pena que eu não goste....

A felicidade da primeira Casablanca (a melhor cerveja do Marrocos!)

Não achei caro viajar pelo Marrocos e para quem gosta de comprar, os souks (ruas de comércio nas medinas) são uma atração por si sós. Couro, cerâmica, prata, castanhas, especiarias, tapetes... Enfim! Uma infinidade de opções. Mas tem que saber negociar e o ritual é sempre o mesmo: 

Turista: quanto custa?
Comerciante: XXX dirhams.
Turista vai indo embora sem nada dizer....
Comerciante: quanto você dá?

Sempre assim! Parece um mantra. E aí começa a negociação que, pra quem gosta e tem paciência, pode, em alguns casos, chegar à metade do preço!

Pelo pouco tempo, nove dias, e o extenso roteiro a ser feito, além do fato de estarmos sozinhas, optamos pela contratação de uma agência de viagem recomendada por uma amiga da Cris. Dito os dias e as cidades que queríamos conhecer, eles montaram o roteiro, reservaram hotel e nos acompanharam por aproximadamente 2000 km pelo país, sem precisar que nos preocupássemos com nada, principalmente com os deslocamentos de ônibus entre as cidades. Isso foi excelente para nós e nosso roteiro, respeitando o dia da Meia Maratona em El Jadida, ficou assim:


- Chegada à noite em Marrakech
- Dia todo em Marrakech
- Ida para Essaouira (195 km) passando pelo local das cooperativas de Argan. Chegada na hora do almoço e restante do dia na cidade
- Ida para El Jadida (255 km). Chegada na hora do almoço e tarde para pegar o kit da prova.
- Dia da Meia Maratona e, depois, conhecer El Jadida
- Ida para Fez de manhã (395 km), com passagem por Casablanca para conhecer a Mesquita Hassan.  Acomodação no hotel.
- Dia todo em Fez
- Ida para Merzouga (465 km) passando por Ifrane, conhecida como a “Suiça do Marrocos”, pelo Vale do Ziz e dormida no acampamento no Deserto do Saara
- Depois do café no deserto, ida para Ouarzazarte (368 km), passando pela cidade de Rissani e a impressionante Garganta de Todra. Acomodação no hotel
- Depois do café, ida para Marrakech (200 km)  com parada no lindíssimo  Khasbah Ait Ben Haddou
 
Ao desembarcar no aeroporto de Marrakech e tocar meus pés pela primeira vez no continente africano, olhando o céu escuro da madrugada e uma lua tímida, enchi-me de emoção. Foi inesquecível. Escolher o Marrocos como meu “debut” na África não poderia ter sido mais perfeito. O país é lindo e, além do aprendizado que as diferenças culturais me trouxeram,  tem uma diversidade incrível de paisagens naturais, passando por montanhas, deserto, mar e neve. 
Marrocos, pode ter absoluta certeza: eu voltarei!



Eu e Cris com nossos "comandantes", Youssef e Iddir


Dicas para quem vai:

Voo: fomos de TAP de Fortaleza para Madrir, de onde pegamos o voo da Ryan Air para Marrakech. Se você voar pela Ryan Air,  não esqueça nunca de imprimir em papel seu cartão de embarque. Eles cobram 50 euros(!) para quem chegar lá sem esse cartão impresso!

Saída/chegada em aeroporto e taxis: não me preocupei com isso, pois a agência fez todos os nossos deslocamentos. Andei de táxi uma única vez e, como tudo no Marrocos, o preço teve que ser negociado ANTES da corrida. O taxi lá é barato.
Câmbio: eu levei euro e no aeroporto eles cobram uma taxa, portanto, se você não precisar de dinheiro imediato pro taxi na chegada, deixe para trocar nas casas de câmbio nas cidades. Sempre tem nas medinas. 
Hospedagem: dentro das medinas, é imperdível ficar hospedado nos riads. Riads são residências típicas com uma fachada discretíssima no exterior mas com uma beleza cativante no interior, com um pátio interno com jardim e uma calma que nos faz esquecer que estamos em cidades movimentadas. Muitos desses riads foram transformados em pousadas. 


Mais Fotos:

Feliz ao chegar no continente africano, no Marrocos, no aeroporto de Marrakech


Café da manhã costumeiro nos riads

Doces marroquinos


Um raro corredor no Marrocos. Em Essaouira


Domingo de praia em El Jadida. Entre futebol,  sinuca, totó e dromedários


Trabalho de paciência na restauração do mosaico na mesquita de Casablanca


Estudantes à caminho da escola. Em algum lugar na volta do deserto


Mais um flagrante do domingo de praia em El Jadida. Nessa tenda o som tava animado!


Tem espaço? Então tem futebol. Esse é o Marrocos

Essaouira



Cris olhando as fotos no celular e eu comendo os amendoins que sobraram dos macaquinhos 😀


Ovelhas e mais ovelhas pelas estradas


Estrada


Duas marroquinas

Colorido nas ruas de Fez


Pátio interno de um dos riads que ficamos


Pelos souks de Marrakech



Originalidade no nome é a alma do negócio 😂


Mesquita de Koutoubia em Marrakech


Flores pelo caminho



Porta do deserto


Cidades pelo caminho




Companheira de viagem




Aeroporto de Marrakech



Literalmente a última Casablanca do deserto, no aeroporto de Marrakech

3 comentários:

Anônimo disse...

Lia, obrigada por dividir detalhes de uma viagem bem interessante. Adorei!!
Sandra

Anônimo disse...

Mais uma verdadeira aula de cultura. Adorei!
Ana Célia

Anônimo disse...

Fantástica narrativa! Excelente aula sobre Marrocos!
Telma